Por shihan Rogério Costa
Odori quer dizer dança, e tem dois significados na cultura oriental.
No primeiro destes significados Odori se refere a praticas de caráter religioso cerimonial, especialmente vinculado no Japão ao Xintoísmo e ao Budismo. Alguns exemplos são , as danças usadas em comemorações como o festival de Obon, que é uma homenagem aos espíritos dos amigos e familiares falecidos. Nesta tradição o Odori sobrevive como rito cerimonial associado com celebrações de muitos feriados religiosos.
O segundo significado de Odori é, ou melhor, era um segredo muito bem guardado de uma tradição das artes marciais japonesas, em particular do Minamoto Bujutsu de onde surgiu o Aikijujutsu. Existe desde tempos remotos um método de treinar conhecido como Aiki In Yo Odori, ou simplesmente, Aiki Odori. O mesmo consiste em uma combinação de movimentos especializados, junto com padrões respiratórios e de energia que visam equilibrar as duas polaridades de energia (In e Yo, In e Yang ou Su e Bu) dentro de nosso corpo.
Mas infelizmente o Aiki Odori entrou em desuso dentro da comunidade marcial, pois quase todos os Ryus acabaram perdendo o conhecimento do mesmo em algum ponto durante a parte posterior da era de Edo e o começo da Restauração de Meiji. Isso aconteceu principalmente devido a criação dos Katas pré-arranjados que substituíram os Katas livres originais (sem formas definidas) que as escolas anteriormente usavam.
Odori era um método de movimento de estilo livre que formou o coração do Bugei da escola de Minamoto contribuindo em muito para as habilidades marciais armadas e desarmadas dos mesmos.
Muitos dizem que Morihei Ueshiba praticou o Odori, e através dele descobriu como canalizar o Ki em sua criação marcial, o Aikido. No treino com o Jô e a Katana, ele era especialmente fantástico e o Odori o teria ajudado muito nisso. Mas a liberdade de movimento que ele tinha, acabou dando lugar a movimentos arranjados em Katas que hoje são ensinados em varias escolas pelo mundo afora.
No Hiten-Ryu, o Odori deu origem a formas avançadas de manipulação de Ki que existem nas formas de Aiki que praticamos.
Quando o general Douglas MacArthur proibiu a prática das artes marciais no Japão, muitos artistas marciais reavivaram a prática de Odori para serem capazes de praticar as artes marciais deles disfarçadas como danças folclóricas, mas na realidade eles estavam continuando o treinamento de Aikijujutsu que faziam a séculos.
Mas o Odori se espalhou de maneira interessante pelo Japão e mesmo depois de séculos continuou a ser ensinado, mesmo que de forma fechada na maioria das escolas.
Para entendermos como ele saiu do clã de Aizu vamos dar um exemplo: Olhemos para o décimo segundo século para localizar Yoshimitsu Minamoto que organizou o legado de arte marcial que foi transmitido ao clã Takeda e eventualmente tornou-se o Daito Ryu Aikijujutsu.
Entre os guerreiros treinados no Bujutsu familiar estavam os grandes guerreiros de Minamoto, Yoshiie, Yoshikiyo, Yoshitsune, Yoritomo, e Tametomo. É em Tametomo que nos prenderemos no momento. Em 1156, Tametomo participou em um incidente que foi chamado a Guerra de Hogen na qual o Minamoto lutou contra o clã Taira. Eventualmente o Taira ganhou este conflito e Tametomo foi exilado para Ilha de Oshima.
O clã Taira, esperando terminar qualquer esperança de uma ameaça deste grande guerreiro, e querendo não o matar por respeito, cortou os músculos do braço dele. Mas Tametomo conseguiu se curar usando conhecimentos de I-jutsu ( medicina oriental) e de Ki, e escapou para Okinawa onde se reuniu com aliados e planejou organizar um retorno contra o inimigo. Em Okinawa o clã Minamoto conheceu a classe governante da ilha e tornaram-se amigos dos mesmos. Tametomo se casou uma mulher de Okinawa e teve um filho que ficou conhecido pelo nome de Shunten. O mesmo aconteceu com outros samurais. Nós sabemos que Shunten se tornou o primeiro imperador de Okinawa.
Quando Tametomo deixou Okinawa para voltar à batalha contra o clã Taira, é uma certeza que ele teria deixado para trás um guardião para o filho dele cuja responsabilidade teria sido completar a educação dele, especialmente com respeito às artes marciais.
A arte marcial de Okinawa chama-se Bushi Te. Te para venerar a arte própria da ilha e Bushi para honrar o Samurai de quem eles aprenderam o Bujutsu formal.
Quando a dinastia de Sho foi estabelecida determinou-se que cada criança da família real teria que aprender a arte marcial familiar secreta que nunca foi compartilhada fora da classe governante. Cada família teve a própria idéia de como isto deveria ser controlado.
No caso de Sho Shitsu, o filho primogênito dele, Sho Tei se tornou o próximo rei de Okinawa, enquanto o sexto filho dele, Sho Koshin, fundou a família de Motobu. Ele mudou o nome dele para Chohe e continuou praticando a arte marcial passada pelo pai dele. Ele superou as artes que aprendeu, e escolheu ensinar só seu filho primogênito os segredos que tinha descoberto.
Tempos depois Choyu decidiu que, com o fim da era feudal, a necessidade para tal segredo específico era desnecessária. Ele então decidiu ensinar todos seus filhos, mas infelizmente seu filho primogênito morreu jovem, e seus filhos mais jovens não estavam interessados em aprender a arte, pois viam isto como arcaico e desnecessário para a vida moderna.
Mas ele não queria que sua forma marcial (goten-te – mão do palácio) morresse e assim escolheu ensinar para o melhor amigo do filho mais jovem dele a arte, com a compreensão que ele ensinaria o filho Toraju cujo nome de adulto se tornou eventualmente, Chomo.
Infelizmente, Chomo morreu no bombardeio de Okinawa durante Segunda Guerra Mundial. Isto tornou Uehara o último mestre praticante de Goten Te. Ele então decidiu compartilhar sua arte para que ela não morresse e para tanto abriu o ensino chamando-o de Motobu Ryu Kobujutsu, sendo que o principio central desta arte é o Odori Te.
Com isso mostramos como o Odori fez seu caminho até nossos dias, mas não houve somente esse caminho, cada um dos guerreiros que aprendeu o mesmo teve um destino e com ele o Odori seguiu até nossos dias.
Mas hoje o Odori esta esquecido por muitos que se apegam a formas e nelas vêem um meio de treino e de exibição.
Nossa escola diz que formas pré determinadas de nada servem a não ser para se ensinar a base dos movimentos e sempre devem ser executadas dois a dois, pois executar movimentos no ar não dá noção de reação ante um ataque real.
Tentamos dar prosseguimento a uma tradição milenar e transmitir o conhecimento do Ki para a prosperidade e o Odori é um ponto importante deste estudo onde os movimentos devem seguir o Ki e com ele se harmonizar. O odori é uma dança com o Cosmos na qual nos envolvemos com a energia a nossa volta e com isso conseguimos alcançar um potencial interior antes não conhecido. O odori pode ser uma Dança de grande beleza ou de letal destruição. Como tudo no Cosmos, dentro dele, existe a essência da Vida e da Morte, e apenas aquele que dança poderá saber em qual destino seus movimentos finalizarão.
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